quinta-feira, 14 de abril de 2011

Pedaço de carne I

No Açougue -
a açougueira.


Depois do abate, quando a carne já está pendurada por ganchos na altura do cangote, ela, a açougueira, ia nas partes recortadas e sentia elas. Cheirava, metia-lhe as mãos e apertava até a carne explodir por entre os dedos. Chegava tão perto dos olhos que não dava pra distinguir o que era olho e o que era carne. Roçava as bochechas alvas e claras da mulherzinha que era e que não tinha pudor da carne. Deixava o sangue tocar sua face e rolar decote a baixo fazendo a curva do seio e desaparecendo logo antes de onde seria interessante olhar ... e ver. Porque ela via, não só olhava. Era uma contemplação exacerbada. Era passional todo aquele mórbido interesse. Ela o sentia como um lindo vaso branco com flores levemente desprendidas de vida, a beleza da natureza morta.