terça-feira, 29 de setembro de 2009


Ando tendo sido
Estranho ando e sinto
Sino ouço vento
Durmo toque
[...]

Finjo que não vejo
não, importa mesmo
lençol coberto aberto
pele marcada arranho
agrada compacto tato
sacia indelével desejo

Me mato em medo corado
seguro por ter onde ver
"insustentável leveza do ser"
cafés para dois,
meus leões não esperam depois
corrompida imaginação
prevê idas de voltas me embaralho no chão.

(m.P)

domingo, 27 de setembro de 2009

de um vôo aviar

Só a idéia de estar voltando para casa desamarga a saliva,
sensação que causa borbulhas na esquina da garganta.
Aquele barulho de deixar o chão no chão traz tanto alívio,
me encontro com meu semelhante: o desnudo e puro ar.
Para casa ver os meus.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Rainha de Copas

Olhos negros e oblíquos, se perde na pouca idade. Vontade de ser louca, e pode. Sai por ai com blusa rasgada e pés nus. Alta e do tipo que recheia uma mão, por enquanto - diz, não se importa de arranhar os pés naquelas pedrinhas queridas que depositam suavemente seu corpo pedroso na terra vermelha e úmida. Aqueles pés também passeiam pela corda-bamba. Aquela que faz a ponte entre a janela do quarto dela e a janela da cozinha dele. Louca. Arregaça a barra da calça para se atrapalhar menos e vai... vai equilibrar, não olha pro vazio oco que sustenta seus braços abertos. Sem aviso, pára. Nem quarto nem cozinha. A inquietação dele faz tremer a corda, embora não a tocasse. Devagar ela continuou, cultivava paciência. Olhava para além dos olhos dele, ia mergular em imensidão verde de mar sem fim - Ah, o olhar dele é assim! Eu a vi fazer isso e invejei. Não desejei que caisse no profundo negro, voluntariamente o ameaçou fazer várias vezes. Era um corpo mais transparente do que pretendia ser, mostrava mais de si num entreabrir dos lábios roxos de frio. O galego de cabelo meio arrepiado tinha uma inquietação que me fez pensar se a menina teria coragem de chegar até ele. Não esperei, preferi virar de costas e imaginar o fim daquela cena, como se a vida fosse feita de cenas coladas por um péssimo diretor. Engano meu. O diretor era ótimo, e não havia ensaios. Aqueles dois eram prova disso. Tentei fazer o meu próprio final da vida alheia, e na minha mesquinhez de espirito desejei um "felizes para sempre", mas que idéia absurda - pensei, ela mal chegara na metade e a corda balançava tanto que concerteza, ia desistir e voltar. Morena, das calças arriadas, pés sujos de barro, meninice em corpo de mulher, não hesitou em atender seu coração e correu para um estranho... beirava um abismo e mesmo assim, via-se arder por dentro. Ela na corda, ele na janela. Não consegui largar a imagem dos olhos dela, pegavam fogo. Os dele eram calmaria agitada, na ânsia de tê-la logo girava entre os dedos um toquinho de cigarro. Até esse momento não sorriam, mantinham-se fixos. Aquilo me venceu. A mão dele quase alcançava ela, um sorriso de sincero deleite com um simples toque. Aqueles olhos negros o prediam num sorriso leve e infantil que dizia - Sou sua. O moço, que já não era tão moço assim, sorriu mais e piscou, parecia pensar - Eu sei, é minha até não ser mais, será minha o nosso tempo eterno que durar.
Bisbilhotei tudo pela fresta da porta dos fundos, não me arrependo de poder contar essa história.

- Abra esse monte de cortinas e deixa o sol entrar!
- Hoje eu não quero ver o sol!
- BOBA! Nesse estado não tens poder para ditar ordens...Não é você que não quer ver o sol, é o sol que não quer te ver!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

- e por mais estranho que pareça, ELE, sempre esteve na minha sala de possibilidades... -