segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Rainha de Copas

Olhos negros e oblíquos, se perde na pouca idade. Vontade de ser louca, e pode. Sai por ai com blusa rasgada e pés nus. Alta e do tipo que recheia uma mão, por enquanto - diz, não se importa de arranhar os pés naquelas pedrinhas queridas que depositam suavemente seu corpo pedroso na terra vermelha e úmida. Aqueles pés também passeiam pela corda-bamba. Aquela que faz a ponte entre a janela do quarto dela e a janela da cozinha dele. Louca. Arregaça a barra da calça para se atrapalhar menos e vai... vai equilibrar, não olha pro vazio oco que sustenta seus braços abertos. Sem aviso, pára. Nem quarto nem cozinha. A inquietação dele faz tremer a corda, embora não a tocasse. Devagar ela continuou, cultivava paciência. Olhava para além dos olhos dele, ia mergular em imensidão verde de mar sem fim - Ah, o olhar dele é assim! Eu a vi fazer isso e invejei. Não desejei que caisse no profundo negro, voluntariamente o ameaçou fazer várias vezes. Era um corpo mais transparente do que pretendia ser, mostrava mais de si num entreabrir dos lábios roxos de frio. O galego de cabelo meio arrepiado tinha uma inquietação que me fez pensar se a menina teria coragem de chegar até ele. Não esperei, preferi virar de costas e imaginar o fim daquela cena, como se a vida fosse feita de cenas coladas por um péssimo diretor. Engano meu. O diretor era ótimo, e não havia ensaios. Aqueles dois eram prova disso. Tentei fazer o meu próprio final da vida alheia, e na minha mesquinhez de espirito desejei um "felizes para sempre", mas que idéia absurda - pensei, ela mal chegara na metade e a corda balançava tanto que concerteza, ia desistir e voltar. Morena, das calças arriadas, pés sujos de barro, meninice em corpo de mulher, não hesitou em atender seu coração e correu para um estranho... beirava um abismo e mesmo assim, via-se arder por dentro. Ela na corda, ele na janela. Não consegui largar a imagem dos olhos dela, pegavam fogo. Os dele eram calmaria agitada, na ânsia de tê-la logo girava entre os dedos um toquinho de cigarro. Até esse momento não sorriam, mantinham-se fixos. Aquilo me venceu. A mão dele quase alcançava ela, um sorriso de sincero deleite com um simples toque. Aqueles olhos negros o prediam num sorriso leve e infantil que dizia - Sou sua. O moço, que já não era tão moço assim, sorriu mais e piscou, parecia pensar - Eu sei, é minha até não ser mais, será minha o nosso tempo eterno que durar.
Bisbilhotei tudo pela fresta da porta dos fundos, não me arrependo de poder contar essa história.

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