terça-feira, 9 de agosto de 2011

Uma entre mil histórias de amor

Ela voltava para casa todos os dias no mesmo horário, trazia um pedaço de bolo de alguma confeitaria que nunca me passou perguntar qual era. Café com bolo, a melhor coisa da vida. Mas aquele dia chovia. Campainha, Elisa esqueceu a chave?
Abri a porta. Com o cabelo caido sobre um dos olhos, vi a maquiagem derreter e manchar boa parte do seu rosto. Estava linda. A roupa molhada delíneava seu corpinho e ela arrepiava com frio do vento que soprava e balançava os penduricalhos da sua saia.
Na mão carregava um guarda-chuva e o manuscrito do seu último conto pro jornal, mas perdera algumas páginas no caminho. Bem... eu acho que perdera.
Parada na porta ela levantou o olhar borrado, sorriu fazendo aquele movimento nos lábios que me fazia querer mordê-los. "Elisa, você esta encharcada meu amor!" Quiz dizê-lo mas Elisa se precipitou porta a dentro num impulso que quase me beijou, roçou o nariz bem de leve no meu e seguiu reto. O perfume dela me invadiu . Eu havia me esquecido do perfume dela, como pude permitir isso? Ela correu até a janela embaçada da sala grudou a única folha que restou em sua mão ali , virou de supetão me puxando com o olhar. Eu ainda estava parado segurando a porta aberta. Tirei meu chapéu, lentamente fechei a porta sem desgrudar os olhos dos olhos dela. Elisa dançava loucamente "A mais bonita", eu queria guardá-la num pote. O cabelo respingava pra todo lado e ela rodava e rodava e rodava. Não sei o que acontecia no corpo dela, parecia que nunca mais dançaria. Era linda demais. Tomei-a nos meus braços e beijei-a. Nunca mais eu a deixaria.
Eu muito sonolento vi o quarto passar de vermelho para amarelo em poucos segundos, procurei Elisa tateado o lugar dela na cama, não estava. Desgarga de adrenalina no meu peito, escutava o pulso do coração. Sai correndo pela casa chamando por ela e nada. No banheiro não estavam suas coisas, no guarda-roupa faltavam algumas roupas. Desesperei, me deixei escorregar de costa para a porta que eu abrira para ela na noite anterior. Vi o papel que ela grudara no vidro da janela. Naquele instante o papel descolou e caiu suavemente no chão. Fui até ele , o sol refletido nas gotículas que sobraram da chuva projetavam um mini arco-íris bem no papel:
"... e pedaços comidos de frase no canto da página são como eu na vida dele: um lembrete singelo de que amor existe. Corri para ser e não apenas estar. Na tristeza do descaso me perdeu sem me deixar existir."

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